Traduzir o que não pôde ser dito por Janine Altounian

"Traduzir o que não pôde ser dito" in Lacuna n° 6 de dezembro de 2016  artigo, n -2, uma revista de psicanálise.

É um pouco embaraçoso estar encarregada da primeira intervenção deste colóquio na medida em que, retomando os termos de sua proposição, minha exposição vai certamente pensar “a tradução […] considerada nos seus efeitos de passarela entre disciplinas”, só que na perspectiva pouco habitual de uma passarela estendida entre a tradução de uma língua para outra e a tradução de uma transmissão psíquica para uma linguagem compartilhável, ou seja, entre os dois campos de minha atividade de tradutora, seja como germanista, seja como herdeira de armênios sobreviventes do genocídio de 1915.

Tradução | Claudia Berliner

 

É um pouco embaraçoso estar encarregada da primeira intervenção deste colóquio na medida em que, retomando os termos de sua proposição, minha exposição vai certamente pensar “a tradução […] considerada nos seus efeitos de passarela entre disciplinas”, só que na perspectiva pouco habitual de uma passarela estendida entre a tradução de uma língua para outra e a tradução de uma transmissão psíquica para uma linguagem compartilhável, ou seja, entre os dois campos de minha atividade de tradutora, seja como germanista, seja como herdeira de armênios sobreviventes do genocídio de 1915. Com efeito, desde 1970[2] fui cotradutora das Œuvres de Freud e, a partir de 1975[3], procurei traduzir na minha escrita o que os sobreviventes do extermínio de seu povo não puderam transmitir em palavras aos seus filhos porque, como escreve Shoshana Felman:

Uma vítima, por definição, não é somente alguém que é oprimido, mas também alguém que não tem linguagem própria, alguém que teve roubada a linguagem em que teria podido articular sua vitimização.[4]

Essa expropriação da língua nos sobreviventes de uma catástrofe coletiva é geralmente ocultada pelos defensores de uma concepção positivista da história. Mas quando as mensagens não verbalizadas desses sobreviventes são inconscientemente transmitidas a um herdeiro capaz de elaborá-las e verbalizá-las, essa forma de tradução endereçada à própria subjetividade dos leitores, e não a seu saber, transforma essa experiência que ficou muda num “objeto do mundo”[5]. Este não pode mais ser facilmente recalcado, como o seria um conhecimento puramente histórico, e é por isso que esse tipo de tradução — em que um herdeiro/passador traduz uma experiência privada de palavras e de visibilidade em significantes até então inéditos numa cultura provisoriamente não ameaçada de destruição — é, de fato, um ato político.

Minha exposição irá tratar dessa passarela entre a tradução de uma língua e a tradução psíquica sob três aspectos: o estabelecimento de um paralelo entre a tradução linguística e a tradução psíquica, a tradução como modelo de interpretação do trabalho do inconsciente, a postura do tradutor/transmissor de uma herança que foi tragada.

Um paralelo entre a tradução linguística e a tradução psíquica

Para justificar a passarela estendida entre minhas duas atividades de tradutora, vou me apoiar num fato bem conhecido da língua de Freud em que o mesmo substantivo “Übertragung” designa — em versão francesa, a um só tempo — transfert [transferência] e traduction [tradução][6]; e, assim, traçar um paralelo entre as duas formas de experiência do deslocamento tradutório que essa “transferência ou tradução” conhece em mim. Essa prática do deslocamento é, com efeito, exercida tanto na minha atividade de tradutora de Freud quanto na minha escrita de analisante, que busca traduzir o que, do silêncio dos sobreviventes dos assassinatos em massa, foi transmitido sem palavras a seus filhos. Essas duas formas de prática linguística costumam ser estranhas uma à outra, embora contenham dois pontos de convergência. Em cada uma delas, a pulsão de traduzir nasce de uma necessidade de desafiar, paradoxalmente, a impossibilidade de uma tradução: seja a impossibilidade de reproduzir um prazer — por um lado, provocado pela língua estrangeira que o leitor ignora; e, por outro, aquele proporcionado pelo amor secreto dos ascendentes, até então vivido de forma muda —, seja a impossibilidade de reproduzir uma perda ou uma dor — por um lado, a perda da polissemia das palavras na passagem de uma língua-fonte para a língua-alvo; e, por outro, a dor inconscientemente compartilhada na infância com aqueles que sobreviveram à perda de seus parentes, de seu país e de sua fé na humanidade.

Trata-se, em suma, nessas duas situações, de buscar uma via de sublimação para o desconforto ou para a angústia de se encontrar no cruzamento de dois modos de recepção do sentido ou das emoções; dois códigos que fornecem, por ambos os lados, os determinantes do pensamento e da vida afetiva. Em cada uma das duas posições, só o tradutor conhece a não coincidência das valências, seja entre dois sistemas de campo semântico na sua respectiva expressão de uma relação com o mundo, seja entre um impossível pensamento que sobrevive à morte psíquica de uma parte de si e um pensamento que permaneceu indene a esse rompimento. Se o trauma opera uma “destransicionalização”[7] entre a realidade psíquica e a realidade factual, toda tradução do que foi impossível dizer é, de fato, um empreendimento de transicionalização que oferece uma mediação, inicialmente ausente, entre os locais do extermínio e o mundo capaz de acolher suas realidades. Como nos lembra René Kaës,

O trauma é […] o resultado de um fracasso da formação intermediária.[8]

O que também justifica o estabelecimento de um paralelo entre esse dois movimentos tradutórios é que traduzir de fato é, no primeiro caso, deslocar a língua do original para a outra língua, porque as palavras do original têm um sentido ignorado pelo leitor estrangeiro; e, no segundo, deslocar para o campo transferencial da escrita uma matéria originária que não dispõe de palavras para se dizer, pois, transmitida sem palavras, tem de ser dotada de palavras entendíveis para os outros estranhos a essa experiência. Quanto ao que resta como dificilmente traduzível, seja o prazer ou a dor — de teor e de alcance diferentes em cada uma das configurações —, isso constituiu, no meu caso, um ponto de travanca, tanto na tradução do corpus de um texto fundador quanto na tradução de um material transmitido por uma família de sobreviventes, especialmente um testemunho paterno registrado num Diário de deportação.[9]

Embora uma prática do sentido a traduzir — seja o texto original, seja a matéria originária — só possa se dar com a aceitação de um limite, isto é, o consentimento com a perda de um resto, a principal preocupação nessas duas configurações é salvar o máximo possível do que se perde necessariamente nessa mutação, dado que esta, apesar de tudo, condiciona a possibilidade de uma transmissão. No caso do texto original, esse resto intraduzível que revela a diferença irredutível entre modos de pensar numa língua e em outra oferece ao tradutor o privilégio de desfrutar dessa diferença, ao passo que, no caso da matéria psíquica originária, o impedimento que esse restocontrapõe a uma transferibilidade total garante a distância interposta entre a língua de um mundo extinto e aquela que promove um pensamento vivo. Constatar o afastamento do não traduzível evidentemente não significa nem apagá-lo nem renegar sua fecundidade. Poderia dizer que, no meu caso, a língua que a finada Escola da República me ensinou foi a de uma primeira tradução que deixava um resto evidentemente intraduzível, tradução dolorosa, mas inevitavelmente castradora, que em seguida me possibilitou, por um lado, o prazer da tradução de Freud e, por outro, a tradução, pela escrita, de uma transmissão psíquica.

A confrontação desses dois campos de tradução impõe-se ainda mais por se tratar, nesse caso, de traduzir um pensador cuja língua é a de uma relação com o mundo determinada por um “encaixe” das culturas, como bem lembrou Didier Anzieu:

A cultura de pertencimento de Freud é incontestavelmente germânica (inúmeros trabalhos mostraram que ela é igualmente judaica). Sua cultura de referência é greco-latina… Espero ter mostrado que o encaixe de uma cultura de referência numa cultura de pertencimento foi uma das condições da descoberta da psicanálise… [10]

Não é Freud um inovador que, sem dúvida herdeiro dos vários exílios de sua ascendência perseguida, criou para sua investigação o dispositivo do tratamento analítico como sendo o de um exílio ativo? O processo em ação no tratamento é, entre outros, o deslocamento dos primeiros vínculos afetivos para o campo transferencial, a fim de reformulá-los nesse novo espaço psíquico. Diferentes figuras do deslocamento estão a serviço da teorização freudiana: as metáforas sobre a “migração” da função libidinal e seus “migrantes” parecem conservar, no “inconsciente” do estudioso, uma “inquietante familiaridade” com os “atalhos”, “desvios”, “derivações”, “deslocamentos”, “transferências”, “traços”, “clivagens”, “repressões”, “perseguições”, “recalcamentos” e outras “transposições” sublimadas no seu aparelho conceitual e na própria dinâmica de seu método de exploração do inconsciente[11].

A tradução como modelo de interpretação do trabalho do inconsciente

Antes de abordar a tarefa do herdeiro tradutor, de que tratará a terceira parte desta exposição, vou considerar a tradução como constituindo um modelo de interpretação de certos processos psíquicos. Se, com efeito, para recolher e transmitir o que resta de uma cultura destruída é preciso traduzi-lo, só se pode traduzir o que foi simbolizado, e o trabalho de um herdeiro portador dos traços dessa destruição consiste precisamente nesse trabalho que Freud chama de trabalho cultural: “Kulturarbeit”. Ora, no caso de uma transmissão traumática, a definição que Jean Laplanche dá do inconsciente referindo-se ao processo da tradução pode ser particularmente esclarecedora para nós. Eis o conjunto de sua argumentação, que em seguida vou resumir para meus propósitos:

A […] função da tentativa de tradução é fundar, no aparelho psíquico, um nível pré-consciente. O pré-consciente […] corresponde ao modo como o sujeito constitui, representa sua história para si. A tradução das mensagens do outro […] é, essencialmente, uma historização.

O inconsciente é […] o que escapou desta atribuição de sentido que chamo de tradução.

[Quando] nada é traduzido, a mensagem originária permanece imodificada no aparelho psíquico […] ela constitui, então, o que poderíamos chamar de “inconsciente encravado” […] O saldo do fracasso da tradução pode ser, notadamente, uma transmissão imodificada, intergeracional, sem nenhuma metabolização.[12]

Resumindo, portanto, “o inconsciente é […] o que escapou dessa atribuição de sentido que [Jean Laplanche] chama de tradução”[13], de tal modo que a visada do trabalho cultural seria “fundar no aparelho psíquico um nívelpré-consciente[14] exumando o “não traduzido encravado”[15] da herança traumática. Menciono a seguir uma passagem muito interessante dessa tese de Laplanche, que destaca o papel de uma “ajuda para a tradução, oferecida pela cultura ambiente”:

infans tem de recorrer a novos códigos […] Desde muito cedo, tem ao seu alcance, devido ao seu meio cultural geral […], códigos, esquemas narrativos pré-formados. Poderíamos falar aqui de uma verdadeira “ajuda para a tradução”, oferecida pela cultura ambiente.[16]

Digo isso para comentar, de passagem, que, antigamente, a Escola Laica da República oferecia essa “ajuda para a tradução” devido ao colinguismo que estruturava, como explica Renée Balibar, o “francês dos professores”[17]. Ali onde a escola não garante mais essa “ajuda para a tradução” — que, de fato, induz a aculturação à “cultura ambiente”, ou seja, a integração dos diferentes herdeiros das catástrofes contemporâneas —, ela os expõe às tentações da violência. Ser privado da língua é um poderoso motor para o recurso à violência.

Quanto ao “fracasso da tradução”, cujo saldo é, como lembra Laplanche, “uma transmissão imodificada, intergeracional, sem nenhuma metabolização”, ele faz pensar no que Luba Jurgenson, tradutora de Chalamov, chama de “rascunho perdido”, constituído de traços ainda não verbalizáveis da experiência imediata nos sobreviventes dos campos de extermínio. Ele pode dar origem, em seguida, ao “livro I”[18], passível de ser redigido posteriormente, a partir desse infratexto perdido. Na qualidade de tradutora, ela esclarece:

a questão que Chalamov enuncia aqui é a da tradução, da passagem da língua da experiência para a do texto. Constata-se a inadequação das duas línguas: a da experiência é infinitamente pobre, mas, também absolutamente completa, não conhece nenhuma falta; a língua de chegada é rica a ponto de poder dizer sua própria insuficiência. A expressão da falta supõe, com efeito, uma grande complexidade.[19]

Caberia pensar que esse “rascunho perdido”, por estar aquém da linguagem, é semelhante à experiência que os pais sobreviventes não podem nem devem restituir aos filhos, que — tendo-a, no entanto, percebido inconscientemente — podem ter acesso, graças a sua aculturação à “língua de chegada […] rica” dos normalmente vivos, a essa “expressão da falta” que os torna aptos para passar “da língua da experiência para a do texto”.

Em outras palavras, se tomarmos ao pé da letra a definição que Freud dá do recalque na sua carta a Fliess de 6 de dezembro de 1896: “O impedimento da tradução [Übersetzung], eis o que na clínica se chama de recalque”[20], sendo que o termo Übersetzung [tradução] tem, em alemão, o mesmo radical de Setzer [tipógrafo], podemos dizer que esse “rascunho perdido” “se impede” de ser verbalizado pelos sobreviventes, mas que sua tradução [Übersetzung] torna-se, em contrapartida, possível para seus herdeiros/tipógrafos [Setzer] que podem constituir com ele um livro I. O procedimento deles, que procura salvar o que, no silêncio de seus antepassados, esse “rascunho perdido” continha, parece-se com o daqueles tradutores de textos antigos cujos originais perdidos só chegaram até nós graças à tradução que eles fizeram para outra língua.[21]

A postura do tradutor/transmissor de uma herança que foi tragada

Portanto, o que o herdeiro/passador tem para traduzir é, como escreve René Kaës:

O que se transmite, na transubjetividade das gerações […] é o que não está, o que falta, o que não recebeu inscrição, aquilo cuja inscrição foi impedida, o que foi negado, recalcado ou foracluído.[22]

Nas relações infantis precoces, uma mãe sobrevivente não está em condições de transmitir ao filho nem uma experiência dialetizável em palavras sobre o que ela viveu nem a visão de mundo que disso lhe restou. As palavras maternas trazem o sabor de uma secreta melancolia e não proferem para a criança nenhum saber provedor de alteridade. Estão carregadas da angústia de muitos afetos incapazes de atingir uma secundarização em linguagem. Como a instância de um alhures desejável foi destituída em pais sobreviventes por eles terem sido relegados para fora de um mundo vivível, não podem introduzir o filho no mundo dos outros nem no de suas palavras.

A percepção de um meio clivado em dois espaços culturais e simbólicos mutuamente excludentes e a bipartição que disso resulta — um mundo que parece ignorar o que o outro sabe sem que possa falar a respeito — exigem, então, dessa criança, uma mútua tradução para que se realize, nela, um trabalho qualquer de subjetivação. A experiência traumática que essa tradução procura conter é, em suma, a da mordaça que impedia de dizer em casa, aos primeiros objetos mudos, o dilaceramento vivido fora, na língua do outro ignorante, pois nada desse fora estava presentificado no espaço da intimidade. Mas, para quem caminhava assim de um destinatário surdo a outro, o fora tampouco podia receber, representar os climas, os valores secretos da casa mantida sob a chancela de um não lugar. Parafraseando a expressão “condenado a investir”, com que Piera Aulagnier designa a necessidade do ser humano de se empenhar constantemente no trabalho psíquico de elaboração, poderíamos dizer que o filho de sobreviventes, “condenado a investir”[23] como qualquer um, está, para isso, “condenado a traduzir”.

O tradutor que ele se torna pode, então, eventualmente, durante uma análise e no a posteriori libertador da escrita, tentar desatar, dissolver uma carga de angústia outrora petrificada no lugar mesmo da antiga impossibilidade de falar. A escrita a posteriori traduz, então, uma experiência arcaica desvelando violentamente o lugar de enunciação de um sujeito em suspenso, que se tornou tradutor para retomar, ele mesmo, afetos esparsos que por tanto tempo permaneceram em busca de autor. Explorando as vantagens de uma postura filial, o escritor passador obra de certo modo como tradutor terrorista, pois conjuga em si os dois modos de acolhida: como legatário de um genitor acolhido no país em que nasceu — genitor até então exterminável e privado de palavra —, identifica-se com ele; ao mesmo tempo em que é seu acolhedor, com a tarefa de albergá-lo na língua dos não extermináveis. É essa dupla face que determina, no herdeiro, a postura de um tradutor: ser a um só tempo umacolhido, por identificação com o genitor sobrevivente, e um acolhedor, por sua competência na nova língua da sobrevivência e suas identificações com uma cultura dominante, é o que condiciona seu próprio acesso à palavra. Todo acesso à palavra se manifesta essencialmente pela capacidade de enunciar o desastre de ter sido privado dela. Esse ato de enunciação procura inscrever — no seio da linguagem adquirida a despeito e para além do desastre — o acontecimento fraturante que presidiu o nascimento desse tradutor.

O escritor/herdeiro empresta, então, voz a seu genitor mudo e ao afásico que ele mesmo foi, criança daqui e d’alhures. Nele, a língua que [o] eu não falava outrora, por não existir, eu a falo hoje, mas como tradutor de um lugar em que o eu já não está. Os aprendizados culturais vieram envolver com uma linguagem outra os afetos infantis que ficaram sem nomeação, de tal modo que é a dupla desinência do eu falo na primeira pessoa de hoje e do eu não falava na terceira pessoa de um outrora imperfeito que se faz ouvir ao escavar simultaneamente os dois sulcos do paradigma, ao finalmente reduzir a clivagem entre o experimentado fonte e os meios de expressão alvodo tradutor, ao reconciliar um pouco a voz sempre vivaz da infância e a do analisante/escritor.

Expulso até então de sua língua materna, como seus pais o foram de seu espaço de vida, um tradutor como este sabe, por experiência, que compreender o outro é, de certo modo, se expatriar[24]. Traduzir é finalmente consentir com a ruptura violenta do exílio[25]: se há similitudes entre a experiência do exílio e a da transferência — no trabalho do tradutor e no do analisante —, é porque o exilado deve não só fazer o luto do solo fértil de seus investimentos iniciais, mas, para não perdê-los totalmente, tem também de assumir a dor igualmente dilacerante de reinvestir — por assim dizer, clandestinamente, como marrano — esses significantes primeiros nas palavras e valores da língua de acolhida.

***

Para concluir, vou relatar, não na qualidade de tradutora, mas sim de leitora, uma experiência dos efeitos de leitura que teve sobre mim a recente tradução de dois testemunhos do escritor Aram Andonian[26], publicados em armênio nos anos 1919-1920 e intitulados em francês: Sur la route de l’exil (Souvenirs) [No caminho do exílio (Lembranças)]e Dans le feu de cet enfer [No fogo desse inferno][27]. Embora eu viesse trabalhando há muitos anos na recepção de um Diário de deportação de meu pai[28], de que só tomara conhecimento graças à tradução que dele mandei fazer[29], a leitura desses dois testemunhos foi, no entanto, tão insuportável que me recusei, num primeiro momento, a escrever seu posfácio, compromisso este que eu tinha assumido junto ao tradutor e ao editor. A minha hipótese para explicar essa reação violenta mostra claramente a importância capital da tradução quando o objeto desta são os testemunhos de  sobreviventes de crimes em massa.

Com efeito, como todo armênio do mundo, a primeira coisa que aprendi de minha história foi que 24 de abril era o aniversário da grande prisão em massa que, em 1915, deportou todos os notáveis e “cabeças pensantes” dos armênios de Constantinopla para os desertos da Mesopotâmia a fim de assassiná-los, amiúde depois de tê-los submetido a suplícios, decapitando assim a “nação” armênia — conforme expressão de Aram Andonian —, que ficava doravante órfã de seus pais, praticamente todos desaparecidos, com exceção de um pequeníssimo número deles que, como ele, tinham sobrevivido. Então, por que, apesar desse saber, ler a tradução do relato dessa caça aos armênios tinha me afetado a tal ponto que suscitou minha recusa obstinada ao que se tornara para mim uma obrigação persecutória: escrever algumas páginas sobre essa recepção?

É que, em nós, o discurso histórico se presta ao recalque operante depois de qualquer leitura opressiva, a fim de nos manter disponíveis para a vida que devemos à sobrevivência dos antepassados. Em contrapartida, a palavra de uma experiência subjetiva que se endereça a nós em primeira pessoa, por intermédio do tradutor, não consegue ser recalcada tão bem. Esse tipo de tradução, inicialmente textual, promove em seguida aquela outra, tomada no sentido mais amplo de tradução/elaboração psíquica, pois torna então possível, num segundo tempo, a leitura pelos herdeiros dos documentos de sua história, até ali ignorados. É nesse ponto preciso que se manifesta a importância capital da tradução, não só por causa de seus efeitos a posteriori na transmissão psíquica, mas também por causa de seu impacto político. Ela de fato cria e introduz, no seio dos eventos culturais da cidade, uma instância de enunciação inédita, no sentido que Jacques Rancière dá a isso quando se refere ao “litígio político”[30]. ♦

REFERÊNCIAS

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BALIBAR, Renée (1985) L’institution du français / Essai sur le colinguisme des Carolingiens à la République. Paris: PUF.

FELMAN, Shoshana (1990) “À l’âge du témoignage: Shoah de Claude Lanzmann”. In: DEGUY, Michel (Org.) Au sujet de Shoah, le film de Claude Lanzmann. Paris: Belin; pp. 55-145.

KAËS, René (1989) “Ruptures catastrophiques et travail de la mémoire”. In: Violence d’état et psychanalyse. Paris: Dunod; pp. 169-204.

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JANIN, Claude (1996) Figures et destins du traumatisme. Paris: PUF.

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LAPLANCHE J. (1984) “Traumatisme, traduction, transfert et autres trans(es)”. In: La révolution copernicienne inachevée. Paris: Aubier, 1992; pp. 255-272.

LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; pp. 195-214.


* Janine Altounian é ensaísta, co-tradutora de Freud desde 1970 e responsável pela harmonização na equipe editorial das Obras Completas de Freud na PUF. Nascida em Paris de pais armênios sobreviventes do genocídio de 1915, trabalha sobre a “tradução” daquilo que se transmite de um trauma coletivo aos herdeiros dos sobreviventes. É um dos membros fundadores da AIRCRIGE (Associação Internacional de Pesquisa sobre os Crimes contra a Humanidade e Genocídios). Publicou numerosos artigos sobre a língua de Freud, a transmissão traumática e as seguintes obras: « Ouvrez-moi seulement les chemins d’Arménie»/ Un génocide aux déserts de l’inconscient (1990); La Survivance/ Traduire le trauma collectif (2000); L’écriture de Freud/ Traversée traumatique et traduction (2003); L’intraduisible/ Deuil, mémoire, transmission (2005) ; Ricordare per Dimenticare/ Il genocidio armeno nel diario di un padre e nella memoria di una figlia (2007); Mémoires du Génocide arménien/ Héritage traumatique et travail analytique (2009); De la cure à l’écriture/ L’élaboration d’un héritage traumatique (2012); GERİ DÖNÜŞÜ YOK/ Bir Babanın Güncesinde ve Kızının Belleğinde Ermeni Soykırımı [prefaciado por Bella Habip, psicanalista] (Aras Yayıncılık: İstanbul, 2015).


** Claudia Berliner é psicanalista e tradutora


[1] Conferência de abertura ministrada em 13 de dezembro de 2012, quando do colóquio Traduction et Innovation. Université Paris Diderot, Amphithéâtre Buffon (13, 14 e 15 de dezembro de 2012).

Apresentação do colóquio: Este colóquio reúne pesquisadores e especialistas de diversos campos, que apresentarão contribuições de alto nível em torno da tradução como fator de difusão da inovação dos campos das ciências e das humanidades. Em particular, procuraremos avaliar de que maneira ciências e humanidades se sobrepõem por meio do ato de tradução, e como a tradução influencia não só a transmissão, mas a própria constituição dos saberes, num cruzamento contínuo de campos disciplinares e culturais. Nota-se que a tradução não é uma operação neutra. Muito pelo contrário, seus procedimentos têm uma incidência sobre as disciplinas em que ela intervém. Uma das finalidades do congresso é compreender melhor esse impacto, sua extensão e as condições em que se exerce. Uma atenção particular será dada à questão de saber em que medida o campo da tradução está ele mesmo estruturado pelas disciplinas nas quais é utilizada. Há uma necessidade expressa dirigida aos cientistas, e mencionada pelos próprios cientistas, de comunicarem melhor as implicações de suas descobertas. O mundo atual, com sua tecnologia, mas também com suas problemáticas, econômicas ou ambientais, torna mais necessário do que nunca que todos tenham a capacidade de compreender e avaliar os resultados da ciência, mas também os argumentos que ela produz. A tradução cumpre um papel primordial nesse processo — papel que, no entanto, ainda precisa ser amplamente reconhecido e definido. As comunicações e os painéis reunidos para este colóquio concernem a temas em que a tradução é considerada nos seus efeitos de passarela entre disciplinas, particularmente em campos em que as ciências estão implicadas: na história das ciências, nas ciências da linguagem, nas ciências clínicas e do campo da saúde, em psicologia e psicanálise, em ciências cognitivas, em antropologia, para citar apenas algumas delas. Será que o inglês é realmente a língua da ciência? Qual a capacidade própria da tradução de gerar novos debates, novas problemáticas nas e entre as disciplinas? Será que a tradução é em si mesma um fator de renovação dos saberes? Estas são algumas das questões para cujo debate esperamos contribuir durante esses dias.

[2] Cotradutora de Freud desde 1970, fui também, a partir de 1983, “responsável pela harmonização” na equipe editorial das Œuvres complètes de Freud, publicadas pela PUF sob a direção científica de Jean Laplanche. Cf.: ALTOUNIAN, Janine (2003) L’écriture de Freud, Traversée traumatique et traduction. Paris: PUF/bibliothèque de psychanalyse. [A escrita de Freud: travessia traumática e tradução]

[3] Desde o meu primeiro artigo: “Comment peut-on être Arménien?” [Como se pode ser armênio?], publicado na revista Les Temps Modernes, dezembro de 1975, n° 353, reeditado em ‘Ouvrez-moi seulement les chemins d’Arménie’, Un génocide aux déserts de l’inconscient [‘Abra-me apenas os caminhos para a Armênia’, Um genocídio nos desertos do inconsciente] (Prefácio de René Kaës). Paris: Les Belles Lettres/ Confluents psychanalytiques, 1990, 2003 (2ª ed.); até La survivance / Traduire le trauma collectif [A sobrevivência/ Traduzir o trauma coletivo] (Prefácio de Pierre Fédida, Posfácio de René Kaës). Paris: Dunod/Inconscient et Culture, 2000, 2003 (reed.);L’intraduisible / Deuil, mémoire, transmission [O intraduzível/ Luto, memória, transmissão]. Paris: Dunod/ Psychismes, 2005, 2008 (reed.); Mémoires du génocide arménien/ Héritage traumatique et travail analytique[Memórias do genocídio armênio/ Herança traumática e trabalho analítico]. Vahram et Janine Altounian, com a contribuição de K. Beledian, J.F. Chiantaretto, M. Fraire, Y. Gampel, R. Kaës, R. Waintrater. Paris: PUF, 2009; e, recentemente, De la cure à l’écriture / L’élaboration d’un héritage traumatique [Do tratamento à escrita / A elaboração de uma herança traumática]. Paris: PUF, 2012.

[4] FELMAN, Shoshana (1990) “À l’âge du témoignage: Shoah de Claude Lanzmann”. In: DEGUY, Michel (Org.) Au sujet de Shoah, le film de Claude Lanzmann. Paris: Belin; p. 24.

[5] Retomo aqui as palavras de Luba Jurgenson na sua intervenção “Traduire et retraduire les témoignages du Goulag” no colóquio Traduire l’expérience au- delà de ses limites, de 17 de outubro de 2012.

[6] “Übersetzen” é, em geral, empregado para significar traduzir, mas Freud também emprega “übertragen” nesse sentido. Portanto, para o substantivo correspondente, “Übertragung”, o termo em uso na tradução francesa étransfert [transferência], considerando que ele também inclui o sentido de ‘tradução’.

[7] Cf. JANIN, Claude (1996) Figures et destins du traumatisme. Paris: PUF; pp. 23-24.

[8] KAËS, René (1993) “Le sujet de l’héritage”. In: Transmission de la vie psychique entre générations. Paris: Dunod; p. 54.

[9] Sua versão integral vem acompanhada do fac-símile do original em Mémoires du génocide arménien.

[10] ANZIEU, Didier (1987) Influence comparée de la langue et de la culture françaises et germaniques sur l’auto-analyse de Freud, Psychanalyse à l’Université, vol. 2, n. 48; p. 539.

[11] Note-se a dupla valência — psíquica e territorial — de muitos conceitos da metapsicologia freudiana que remetem a um movimento processual que não se dá em linha reta, mas em diferentes tipos de deslocamentos: ei-los na ordem da enumeração: “migração” [Wanderung], “atalho” [Umweg], “desvio” [Ablenkung], “derivação” [Ableitung], “deslocamento” [Verschiebung], “transferência” [Übertragung], “traço” [Spur], “clivagem” [Spaltung], “repressão” [Unterdrückung], “perseguições” [Verfolgung], “recalcamento” [Verdrängung], “transposição” [Umsetzung]; bem como as rupturas a que remetem as metáforas da migração da função libidinal, comparável a um povo que “abandona seu território [seinen Wohnsitz verläßt] para procurar um novo […], pequenos bandos ou grupos de migrantes [Wanderer] se deterão no caminho (…), enquanto o grosso da tropa segue em frente”, a “um povo em movimento [ein Volk in Bewegung] [que] deixou atrás de si [zurückgelassen] fortes contingentes nos locais de parada de sua migração [Wanderung]”, sendo que “aqueles que seguiram avançando [die weiter Vorgerückten] […] correrão maior perigo de ser derrotados se tiverem deixado para trás [zurückgelassen] um maior número de seus membros durante a migração [Wanderung]. “A libido migra e percorre o caminho inverso [wandert zurück] até seus próprios pontos de fixação” (Freud, 1917 [22ª Conferência de introdução à psicanálise], pp. 351, 353, 388 da ed. francesa; 2000, p. 351, 353, 387). Também o sintoma é um “corpo estranho” [Fremdkörper] que goza do “privilégio da extraterritorialidade” [Vorrecht der Exterritorialität] (“Inibição, sintoma e angústia”, Freud, 1925, p. 125; 1992, p. 215).

[12] LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; pp. 200-203.

[13] LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; p. 201.

[14] LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; p. 200.

[15] LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; p. 201.

[16] LAPLANCHE, Jean (2003) “Trois acceptions du mot ‘inconscient’ dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée”. In: Sexual, La sexualité élargie au sens freudien [2000-2006]. Paris: PUF, 2007; p. 208.

[17] BALIBAR, Renée (1985) L’institution du français / Essai sur le colinguisme des Carolingiens à la République. Paris: PUF; p. 150. Vide também p. 4: “Forjamos um conceito indispensável para nosso estudo. O termocolinguismo designa a associação de certas línguas nacionais num aparelho de línguas em que elas encontram sua legitimidade e a matéria para os seus exercícios. Sem essa associação (tradução, gramatização) […], a norma linguística não pode nem ser instituída, nem funcionar, ou seja, ela simplesmente não existe”.

[18] Ela o denomina “primeiro livro como uma memória prótese”, conforme a expressão de Primo Levi. Assim, ao Livro I de Primo Levi, Se questo è un uomo [É isto um homem?], 1947, corresponde, segundo a autora, o Livro II, I sommersi e i salvati [Os submersos e os salvos], 1986. Cf. JURGENSON, Luba (2003) L’expérience concentrationnaire est-elle indicible? Paris: Editions du Rocher; pp. 19-ss.

[19] JURGENSON, Luba (2003) L’expérience concentrationnaire est-elle indicible? Paris: Editions du Rocher; p. 117.

[20] “Die Versagung der Übersetzung, das ist das, was klinisch ‘Verdrängung’ heißt” [FREUD, Sigmund, Briefe an Wilhelm Fließ, (1887-1904), J. M. Masson, M. Schröter, S. Fischer, 1986, p. 219; Sigmund Freud, Lettres à Fließ (1887-1904), Traduzido do alemão por Françoise Kahn e François Robert. Paris: PUF, 2006, p. 265. Vide o comentário dessa carta feito por Jean Laplanche (1984) em “Traumatisme, traduction, transfert et autres trans(es)”. In: La révolution copernicienne inachevée. Paris: PUF, 2008; p. 255-ss.

[21] É o caso, por ex., de A crônica de Eusébio de Cesareia, cujo original só chegou até nós por meio de sua tradução para a língua armênia. “Nenhum povo estudou mais antigamente e com mais ardor os monumentos literários da Grécia; e a descoberta da tradução armênia da Crônica de Eusébio — cujo original se perdeu e do qual apenas nos restavam curtos fragmentos — mostra que, se cabe imaginar a esperança de encontrar alguns vestígios desses monumentos que o tempo devorou, é sobretudo nas versões que os armênios fizeram deles” (Cf.http://remacle.org/bloodwolf/historiens/michellesyrien/chronique1.htm).

[22] KAËS, René (1989) “Ruptures catastrophiques et travail de la mémoire”. In: Violence d’état et psychanalyse. Paris: Dunod; p. 173.

[23] AULAGNIER, Piera (1982) Condamné à investir, Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 25 [Le trouble de penser]. Paris: Gallimard; pp. 309-330.

[24] Cf. ALTOUNIAN, Janine “Faute de parler ma langue”. In: ‘Ouvrez-moi seulement les chemins d’Arménie’, Un génocide aux déserts de l’inconscient, 2ª ed.. Paris: Les Belles Lettres/Confluents psychanalytiques, 2003; pp. 147-150.

[25] Cf. ALTOUNIAN, Janine (2003) L’écriture de Freud, Traversée traumatique et traduction. Paris: PUF/bibliothèque de psychanalyse; p. 92.

[26] Introdução do tradutor Hervé Georgelin: “Aram Andonian era um homem maduro e conhecido ao ser detido na grande prisão em massa ocorrida em 11 de abril de 1915, de noite — conforme o calendário juliano então utilizado pelos armênios otomanos —, na capital imperial. Por obra do acaso ou, melhor, graças à sorte que ele soube auxiliar com sua astúcia, coragem, inteligência e vontade de sobreviver, Aram Andonian não conhecerá o destino dessas centenas de primeiros exilados, deportados para a Anatólia central onde desapareceriam para sempre. Soube fugir, se ferir, se disfarçar, mentir, se dissimular para escapar da máquina de destruição otomana. Mal ou bem, conseguiu descer até Aleppo e o Líbano e ainda estar vivo quando a região foi libertada ou conquistada, segundo o ponto de vista de cada um, pelos britânicos e depois pelos franceses”.

[27] Publicados em folhetim no jornal armênio de Paris, Renaissance, de 31 de julho de 1919 a 24 de abril de 1920. Traduzidos por Hervé Georgelin, serão publicados incessantemente nas Editions Metis Presses de Genebra.

[28] Intitulado “Terrorisme d’un génocide” em Les Temps Modernes em 1982, foi republicado na íntegra em ‘Ouvrez-moi seulement les chemins d’Arménie’ (pp. 81-119), e em Mémoires du génocide arménien (pp. 13-97). Trechos foram publicados em L’intraduisible (pp. 19-91) e em De la cure à l’écriture (pp. 75-87).

[29] Mandei fazê-la em 1978, oito anos após a morte de seu autor. Estava escrito em caracteres armênios, mas em língua turca, já que muitos armênios eram turcófonos no Império Otomano. Cf. a contribuição do tradutor Krikor Beledian: “Traduire un témoignage écrit dans la langue des autres” (In: Mémoires du génocide arménien). Eis aqui algumas passagens significativas: “Estávamos cansados e tínhamos muita fome. […] Quando chegamos em Akhtarine, estávamos atormentados por um lado pela fome e, por outro, pela sujeira. Os cães destroçavam os mortos, ninguém os enterrava. Tudo cheirava mal à nossa volta […] Após seis horas de marcha, chegamos em Hamam. Lá ficamos surpresos: as pessoas comiam gafanhotos. Quanto aos moribundos, eram incontáveis. […] Meu pai estava muito doente, não conseguia mais se deslocar[…] Então um deles pôs-se a bater na cabeça de meu pai.[…] Mas, para quê?  O que acontece com um homem gravemente doente em quem dão pauladas?  Seis dias depois, no dia do falecimento de meu pai, deportaram de novo […] Disseram à minha mãe: ‘Teu doente está morto’. E minha mãe: ‘Partiremos quando tivermos enterrado o morto.’ Eles responderam: ‘Não, a senhora fará igual aos outros.’ Os outros, de fato, abandonavam os mortos e, de noite, os chacais os devoravam. […] Percebi que haveria problemas e que era preciso fazer alguma coisa. Peguei um frasco de 75 dirhem [1 dirhem=3g], enchi-o com óleo de rosas e fui imediatamente até o chefe do comboio de deportação. Disse-lhe: ‘Deixe-nos ficar hoje, partiremos no próximo comboio com os outros’. Por sorte, ele nada disse. Ficamos um dia a mais. Abrimos uma fossa de dois archines [1 archin = 71 cm] de comprimento e, tendo pago cinco kurus ao derder [padre], enterramos meu pai. […] Em Racca, […] por toda parte as pessoas morriam de fome, não dava para ficar dentro da hospedaria, tudo fedia a podridão […] Não tínhamos mais dinheiro, por isso começamos a comer ervas. Tentamos continuar assim durante um mês, vimos que íamos morrer. Dávamos dois passos e caíamos no chão. Minha mãe pensou. ‘Se for para eu morrer, morro, mas vocês não!’ Assim foi que ela deu nós dois para os árabes” (In: ALTOUNIAN, Vahram; ALTOUNIAN, Janine (2009) Mémoires du génocide arménien/ Héritage traumatique et travail analytique. Paris: PUF, 2009; pp. 21, 24-25, 28)..

[30] Cf. Jacques Rancière, La Mésentente/Politique et Philosophie, Galilée, 1995. 140/141: «o litígio político se diferencia de todo outro conflito de interesses entre partes constituídas […], porque ele não é uma discussão entre parceiros, mas uma interlocução que coloca em jogo a própria situação de interlocução».


COMO CITAR ESTE ARTIGO | ALTOUNIAN, Janine (2016) Traduzir o que não pôde ser dito [Trad. C. Berliner].Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -2, p. 11, 2016. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2016/12/06/n2-11/>.

 

Traduzir o que não pôde ser dito por Janine Altounian
Revue: 
Lacuna
Année de publication: 
2016
Date: 
Décembre 2016
Langue: 
portugais